quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Picolé de chuchu-cabrunco...

Picolé de chuchu foi o apelido dado ao médico e governador de SP, Geraldo Alckmin, mas nós também temos nosso equivalente da alcunha-doce que revela o conteúdo de quem o carrega:

Nulidade.

Um dos candidatos a prefeito dessa taba de lama "ameaçou" de tomar posse com uma equipe da "Santa Inquisição" para devassar as contas da prefeitura...

Uai, se é candidato de verdade, se quer o "bem da cidade", e enfim, se tem cojones, considerando que foi íntimo do grupo que agora é rival por anos, por que não começa a dizer o que já sabe?

Por que trocar suas informações por votos, condicionando a devassa à sua vitória? O preço da moralidade pública está condicionado ao seu sucesso eleitoral, como assim?

Com a palavra os órgãos nominados por ele, que salvo juízo contrário, se esperarem pela posse do moço, vão parecer que estão a serviço de um partido e do novo prefeito, e não do interesse público...

Bem, a julgar o que vem acontecendo no cenário nacional, com a partidarização de setores desses órgãos, não seria novidade se refletissem aqui a conexão com grupos políticos, como espelho do Brasil...

Alô pessoal da equipe do candidato: Se não tem o que dizer para inflar pautas e cavar espaço, é melhor ficar quieto...

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Rio 2016: Os ouros de tolos...

É impossível não falar de Olimpíadas...o desafio é escapar às platitudes...

Pois bem, em se tratando de Brasil, e nossas crueis peculariedades, é sempre bom fazer o exercício de pensar, a despeito da vontade de jornalistas de coleira e seus donos, os barões da mídia...

Primeiro detalhe: Salvo as questões ligadas a administração do Eduardo Paes em relação àlgumas ziquiziras dos alojamentos e da comida, a Olimpíada foi um enorme sucesso, um oásis de eficiência brasileira em todos os aspectos...

Mas isso em si já era esperado, e só as bestas desconhecem o fato de que nosso Estado funciona, só depende de quem está atrás da demanda...

Leblon e Pelinca detêm índices de homicídio iguais aos de Berlim, enquanto Guarus e São Gonçalo ostentam números de conflitos africanos...

Voltemos aos jogos:

No caso dos problemas da Vila Olímpica, como sempre, ninguém cobrou das EMPRESAS PRIVADAS concessionárias e terceirizadas as suas responsabilidades, deixando como sempre a manipulada e surrada versão de que a gestão pública não presta, mas o fato é que a mídia comercial esqueceu superfaturamentos, atrasos, filas, etc, em nome do patriotismo canalha de sempre...

E o bocó do Paes foi lá receber canguru...pois é, enfiaram-lhe um canguru na rima...

Nenhuma menção às violências praticadas por forças de segurança em relação às manifestações proibidas, muito menos a comparação de que na Copa 2014, tais manifestações, embora muito mais ofensivas e grotescas, não tivessem recebido o mesmo tratamento...

Eu me perguntava todos os dias: Se Dilma estivesse à frente do governo, como seria a cobertura da mídia?

Bom, depois temos as obviedades esportivas, mas não menos políticas...

Nosso quadro de medalhas é "o retrato da superação"....puta que lhes pariu, não aguento mais ouvir isso...

O quadro de medalhas, embora não tenha correspondido às expectativas do COB, comandado pelo "impoluto Nuzman" (recentemente envolvido em esquemas e desvios junto com sua filha, tudo prontamente perdoado e esquecido) é um reflexo da mobilidade social e econômica recente do país:

Saem as medalhas das modalidades onde atletas têm origem na elite, como os caríssimos e segregacionistas clubes de natação, vela, etc, e entram os atletas patrocinados por programas sociais diretos ou indiretos (com subvenção de isenções fiscais, embora adorem dizer que não recebem dinheiro público). 

Mas tudo isso é jogado na conta apenas da superação pessoal e de uma meritocracia tão impossível quanto cínica...

Por fim temos o futebol...

Teve gente comemorando o passafora de neymar em galvão bueno como algo que merecesse destaque...

Qual nada, briga de comadres em uma relação promíscua que já, já, por força de compromissos financeiros, volta ao normal em uma daquelas entrevistas cheias de lugares-comuns em alguma casa cinematográfica do jogador recebendo o papagaio cretino com intimidade...

Vitória da seleção? Arf...

Que campeonato pode ser comemorado com um time que sofreu para empatar com Iraque, superou a "tradicionalíssima" equipe de Honduras, e jogou com uma sombra alemã formada, talvez, por atletas da quarta ou terceira divisão de lá?

Agora vem o esforço da mídia cretina em cobrir a Paralimpíada, oscilando sempre entre a emoção barata derivada da incomprensão do universo dos atletas paralímpicos, e as teses "de superação" feitas sob encomenda para palestras de treinamento de RH, do tipo: "Viu, se "até" eles conseguem, porque você está aí parado?"

Vão todos tomar no meio do c%!!!!




sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Escola sem partido ou o partido dos que detestam a escola?

Eu tenho lido algo sobre o assunto...e sinceramente tentei reunir alguma tolerância para atender ao chamado do "debate"...

Não dá...

É a mesma coisa de tentar legitimar "um debate" sobre estupro de crianças ou sobre comer cocô...

Individualmente, os cretinos podem até defender uma ou outra coisa, lastreados na lenga-lenga do amplo direito de expressão, e até suponho que tais cretinos gostem mesmo de comer cocô, abandonando a leviana presunção de que todos sejam pedófilos...

Mas "debater" escola sem partido é como debater a existência da lei da gravidade...

O "debate" é falso, porque nunca se pretendeu escola com partido, mas escola que não renuncia a política, porque não há sociedade sem ela...

Engraçado que os mesmos cretinos que se arvoram a debater essa cretinice, nada falam sobre escolas católicas (uai, como assim, escolas religiosas em estado laico, recebendo subvenção fiscal e dinheiro público para funcionar?)

Pois é, é um "debate" impossível, porque é falso...

Eu até poderia falar mais sobre o tema, mas fico com a imagem:

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A língua é o chicote do rabo...

Ditado mais apropriado para o caso não tem...

Deixemos as explicações para quem pode, direto do blog do Nassif:

Data venia, ministra Cármen Lúcia, por Pasquale Cipro Neto

Jornal GGN - A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, ao ser eleita por dez votos para a presidência do Supremo, resolveu subir nas tamanquinhas em questão perfeitamente dispensável: ela ironizou o desejo da presidenta eleita por 54,5 milhões de votos, Dilma Rousseff, em assim ser tratada. A questão rodou as redes sociais, pontuando como sendo de uma grosseria dispensável. A presidente do STF, com seus 10 votos, poderia ter ficado sem esta nódoa em sua primeira ação como chefe dos 12 ministros indicados por presidentes eleitos. 
Pasquale Cipro Neto, em seu artigo de hoje, fala sobre o presidente e a presidenta, explicando aos puros a questão. Leia a seguir.
da Folha
por Pasquale Cipro Neto
Na sessão de 10.ago, o atual presidente do STF disse o seguinte : "Então eu concedo a palavra à eminente ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita... Ou presidente?". A resposta da ministra foi esta: "Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa, eu acho que o cargo é de presidente, não é não?". 'Data venia', Excelência, o cargo é de presidente ou presidenta.
Essa questão atormenta o país desde que Dilma Rousseff venceu a primeira eleição e disse que queria ser chamada de "presidenta", porque, para ela, a forma feminina acentua a sua condição de mulher, a primeira mulher a presidir o país.
Esse argumento me parece frouxo e um tanto infantil. O que acentua o fato de Dilma ser mulher é justamente o fato de ela ser mulher, mas respeito a escolha dela e os que acham justo esse argumento.
O que não se pode, de jeito nenhum, é ditar "regras" linguísticas totalmente desprovidas de fundamento técnico, mas foi justamente isso o que mais se viu/ouviu/leu desde que Dilma manifestou a sua preferência por "presidenta", forma que não foi inventada por ela.
Na bobajada que se lê na internet, o argumento mais frequente é justamente o da inexistência de "serventa", "adolescenta" etc., como se a língua fosse regida unicamente por processos cartesianos.
Não é, caro leitor. Se assim fosse, não teríamos como fatos consagrados inúmeros casos que nem de longe seguem a lógica. Ou será que no padrão culto se registra algo como "Fulano suicidou"? Pela "lógica", seria essa a forma padrão, mas...
A língua não funciona assim. Um exemplo: às vezes, o falante não tem noção histórica da formação de um termo e acrescenta algo que "ressuscite" o seu sentido literal. É isso que explica, por exemplo, a pronominalização de "suicidar" ("Ele se suicidou", "Tu te suicidarias?"). O verbo não é "suicidar"; é "suicidar-se". Pode procurar no "Houaiss" etc.
A terminação "-nte", que vem do particípio presente latino, forma (em português e em outras línguas) adjetivos e substantivos que indicam a noção de "agente" ("pedinte", "caminhante", "assaltante").
99,9999% desses termos não têm variação; o que varia é o artigo ou outro determinante (o/a viajante, o/a estudante, nosso/nossa comandante), mas é claro que há exceções.
Uma delas é justamente "presidenta", registrada há mais de um século. Na sua edição de 1913, o dicionário de Cândido de Figueiredo registra "presidenta", como "neologismo". Um século depois, esse "neo-" perdeu a razão. A edição de 1939 do "Vocabulário Ortográfico" registra o termo. A última edição de cada um dos nossos mais importantes dicionários e a do "Vocabulário Ortográfico" também registram.
Deve-se tomar muito cuidado quando se usa como argumento o registro num dicionário. Nada de dizer que "a palavra existe porque está no dicionário"; é o contrário, ou seja, a palavra está no dicionário porque existe, porque tem uso em determinado registro linguístico.
Tenho profundo respeito pela ministra Cármen Lúcia, não só pela liturgia do cargo, mas também e sobretudo pela altivez com que o professa. Justamente por isso, ouso dizer que teria sido melhor ela ter dito simplesmente "Prefiro presidente".
Aproveito para lembrar que não tenho feicibúqui, tuíter, instagrã etc., portanto toda a bobajada internética a mim atribuída é falsa. É isso.

Nadadores estadunidenses são tão bonzinhos...

Primeiro é bom dizer: A atuação das equipes de policiais civis foi irrepreensível para desvendar a mentira dos babacas dos EUA.

Dito isso, vamos a vaca fria:

O bordão acima faz sentido para quem tem mais de 40 anos, e conheceu Kate Lira, que pontuava a frase com sotaque macarrônico, num misto de sexismo e preconceito contra mulheres louras (e supostamente burras), e reforçando o mito de que os brasileiros são uma espécie de gatunos adocicados, ou popularmente, malandros violentos, ladinos, mas charmosos...

Poderíamos dizer o mesmo dos cretinos atletas dos EUA, invertendo a lógica...

Mas o certo é que se fez tanto escândalo por nada, ou talvez, porque a mídia não tem o que noticiar, nesses tempos de platitudes olímpicas e repetições ad nauseam de lava-jatos e seus torquemadas...

Turistas, principalmente dos EUA, são incentivados pela nossa subserviência a cagar em nossas cabeças e em nossas frágeis instituições (não confundir com civilidade ou hospitalidade, comum em países que ganham com o turismo, mas que não arriam as calças para cada gringo, ou oferecem as mulheres como o tribos inuits).

Tanto é que temos na Polícia, Delegacias (DEAT e NATE) e Batalhões (BPtur) inteiros dedicados a fazer papel de babá para esses idiotas, enquanto as delegacias do interior e da capital sofrem sem recursos e sem gente para trabalhar...

Em outros países, é delegacia normal, contato com consulado e olhe lá...foda-se você, brasileiro nos EUA ou na Europa...Se reclamar, vai direto no próximo voo de volta  ou para cadeia...

Se fossem brasileiros, e pior, se fossem brasileiros e negros a quebrar instalações em um posto de combustíveis na terra dos coxinhas (Barra da Tijuca), certamente o desfecho seria bem diferente: Tapa na cara dado pelos seguranças do posto onde quebraram utensílios do banheiro e todo rigor policial, onde nem teriam tempo de inventar a historinha do assalto...

Incrível mesmo é assistir que foram ouvidos por uma juíza, meus zeus, temos crimes gravíssimos nas Delegacias a espera de um despacho ou ordem judicial há meses, estancados sob a desculpa (real) do acúmulo de processos...

Uai, os gringos conseguiram o que advogados, partes, e policiais levam horas, meses e anos para conseguir: 
Uma audiência com Vossas Excelências...

Como não existem coincidências, mas sim consequências, dias desses, quando passeava com minha filha pelo Centro do Rio, observei que os VLT traziam na carenagem a marca ALSTOM...

Sim senhor...justamente a fabricante francesa apanhada no esquemão de fraudes de 20 anos do psdb paulista e sua eterna obra do metrô...

Enquanto isso, abutres moralistas, hipócritas e cínicos desmontam, a serviço dos gringos, todas nossas empresas nacionais, privadas e estatais, dando argumentos para sua interdição na disputa por mercados.

Depois reclamam dos maus modos do meninos  de olhos azuis...

Ora bolas, bastava um pedido de desculpas nosso pelo incômodo de desmascará-los e uma súplica para que voltassem sempre a nossa Casa da Mãe Joana...
Ah, e para nos enrabar, dispensem a caminha e o lubrificante...americano é tão bonzinho...

domingo, 14 de agosto de 2016

Didática do golpe: Como o MPF virou partido...

O texto é do Luis Nassif e resume muita coisa que sempre escrevemos por aqui: Como o próprio PT, quando se arrogava de bastião da moralidade, ajudou a alimentar o "monstro" (como define Sepúlveda Pertence, um dos responsáveis pela formatação dos poderes do MP em 1988):

Xadrez de como o PT ajudou o MPF se tornar partido político


1o Movimento – o nascimento do ativismo judicial

A Constituinte de 1988 foi montada em cima de um retrovisor: o regime militar que se encerrava.
A relatoria da Constituinte tinha subcomissões. A do Ministério Público e do Judiciário foi relatada por Plinio de Arruda Sampaio, do PT.  Do lado do MP, recebia assessoria de Álvaro Augusto Ribeiro Costa, Sepúlveda Pertence, Eugenio Aragão, Wagner Gonçalves e Aristides Junqueira, futuro Procurador Geral da República de Itamar Franco.
O Judiciário estava na defensiva. O PT questionou a presidência da Constituinte por Moreira Alves, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e foi apoiado por Ulisses Guimarães;
Mesmo assim, o Judiciário derrotou Plinio impedindo a criação do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), derrubando a proposta de mandatos por tempo limitado para Ministros do STF, criando o STJ (Superior Tribunal de Justiça) e diminuindo para 11 o número de Ministros do Supremo.
Em seguida à promulgação, o Judiciário tomou decisão de recepcionar na nova Constituição as demais normas do Poder Judiciário, como a Loman (Lei Orgânica da Magistratura Nacional), que vinha da época de Geisel.
Ficaram vazios, de leis regulatórias que precisariam ser votadas, porque nenhum partido tinha maioria parlamentar. Foi o caso dos capítulos da Comunicação, Segurança Pública, Reforma Agrária. Para preencher o vácuo, o Judiciário foi interpretando e cada vez mais ocupando o espaço das decisões políticas.
No debate sobre a regulamentação do capítulo da Comunicação, o Supremo, através de ADINs aprovou que concessões de TV não envolviam sinais digitais, só as TVs abertas. Abriu-se uma avenida pelo Ministro das Comunicações Antônio Carlos Magalhães. Só no período Sarney o número de novas concessões foi similar a tudo que foi concedido de 1946 a 1964.
E aí a esquerda começou a chocar o ovo da serpente.
Derrotada nas eleições de 1989, minoria no Congresso, perdia votação e recorria ao Judiciário, através de ADINs (Ação Direta de Inconstitucionalidade). E passou a recorrer a denúncias sistemáticas ao MPF contra adversários políticos.

2o Movimento: o pacto com as corporações públicas

A Constituição foi produto de vários relatórios e projetos.
Ao fim do muro de Berlim e da União Soviética, se somou a crise do ABC, com desemprego trazido pela crise econômica. A base social do PT deslocou-se para o funcionalismo público. E o partido começou a construir pontes com a elite do funcionalismo, Ministério Público, Tribunal de Contas, Polícia Federal, juízes de primeira instância, conferindo-lhes os três Ps: privilégios, prerrogativas e promoção, junto com autonomia funcional e administrativa.
Era um relacionamento em clima de companheirismo total. Daí os relatos de que, antes da Lava Jato, Sérgio Moro era eleitor do PT, assim como Rodrigo Janot.
O mesmo aconteceu com a Polícia Federal. Desaparelhada no período FHC, quando entrou o governo Lula, a PF foi buscar alianças com a esquerda para se aparelhar. Quando Lula foi eleito, a PF queria se responsabilizar até pela segurança presidencial, ocupando o lugar das Forças Armadas.
A partir dessa parceria, o PT adotou várias posições pró-MP e pró-corporações públicas.
Ajudou a derrubar projeto do deputado Paulo Maluf, que penalizava procuradores em ações consideradas ineptas pelo Judiciário – projeto similar ao do atual presidente do Senado Renan Calheiros, visando coibir abusos de poder.
Na Lei Orgânica do MP, os procuradores começaram a pressionar para incluir a ideia da lista tríplice. Era um discurso de fácil assimilação pela esquerda, pelo poder dado à corporação e por ser eleição direta. E essa aliança foi fundamental para consolidar o poder do MPF sobre os demais MPs.
O Ministério Público é composto pelo MPF (Ministério Público Federal), integrado pelos chamados procuradores da República, o da União (os MPs estaduais), o do Trabalho e o Militar. O lobby do MP da República, associado ao PT, possibilitou que a escolha do PGR ocorresse apenas dentro do MPF, o menor de todos. Aliás, Lula vivia se vangloriando de sempre indicar o primeiro da lista tríplice para PGR.
Mais que isso, a Constituição conferiu uma série de competências inéditas ao MP, como o de representar, propor ADINs e "exercer outras funções que lhe forem conferidas por lei, desde que compatíveis com sua finalidade, sendo vedada a representação judicial e a consultoria".
O lobby do MPF retirou do texto o trecho "que lhe forem conferidas por lei". Com isso, o próprio Ministério Público passou a interpretar o que seriam as outras funções.
Hoje em dia, o PGR tem poder para definir tudo da carreira, arbitrar valor das vantagens devidas aos membros do MP, férias, gratificações. Esse poder criou um vício eleitoral similar ao presidencialismo de coalizão: quem está no poder negocia as vantagens e dificilmente perde eleições.

3o Movimento: dos direitos humanos ao padrão OBAN

A ideia inicial na Constituição era a de que o MP trataria fundamentalmente das questões sociais. Gradativamente, no entanto, a maior parte do MP passou a privilegiar as operações que davam mídia.
Três ações históricas garantiram o prestigio do MP na questão penal:
1. Acre: o trabalho do procurador. Luiz Francisco conseguindo a condenação e prisão do parlamentar que matava a os adversários com motosserra.
2. Espírito Santo, contra o ex-presidente da Assembleia Legislativa José Carlos Gratz.
3. No Rio de Janeiro com o procurador Antônio Carlos Biscaia e a juíza Denise Frossard contra os banqueiros do bicho.
Dali em diante, ganhavam espaço as operações em que a imprensa batia bumbo. Procuradores passaram a fazer media training e a buscar a parceria com repórteres policiais nas suas operações, a se valer dos vazamentos como armas contra a defesa e contra juízes garantistas. Tudo com a contribuição do PT, embarcando na onda das táticas moralistas para provocar investigações contra inimigos do partido.
O Centro de Inteligência do Exército é o único que funciona bem, dentro da máquina pública. Nem todos os coronéis do CIEX passam no funil para se tornarem generais.
Mesmo não tendo poder de investigar, o MPF buscou 13 deles na área de inteligência para assessorar nos grampos, no Guardião, na tecnologia de infiltração e de interrogatório.
Aos poucos, a área penal do MPF passou a incorporar todas as características da OBAN, a Operação Bandeirantes, que marcou o período de maior repressão do governo militar. A OBAN foi responsável por um conjunto de inovações, posteriormente adotada pelo MPF e pela PF.
A primeira delas foi a constituição de forças-tarefas para operações específicas. E toda operação tem que ter uma narrativa, uma marca, uma versão dos fatos que seja verossímil, embora não necessariamente verdadeira, para orientar os trabalhos. Foi assim com a guerrilha, com os dominicanos e no episódio Vladimir Herzog. Herzog morreu porque submetido a torturas para que delatasse suposto conluio do governador Paulo Egydio Martins com o PCB.
A segunda, o princípio básico da guerra revolucionária – bem detalhado pelo jornalista Antônio Carlos Godoy no livro "A Casa de Vovó” -, de que quem prende, quem investiga, quem denuncia e quem julga não podem ter contradições entre si. Tem que haver consenso para impor a versão à mídia e à Justiça. E deve se valer da mídia para espalhar versões ou declarações de arrependimento, dentro do conceito da guerra psicológica adversa.
A Lava Jato recorreu a métodos similares, devidamente aplainados pelos novos tempos: em vez de pau de arara, outras formas de tortura moral, como as prisões preventivas sem prazo para acabar, isolados do mundo e da família.
Não apenas isso.
Criou o conceito do inimigo interno, através da chamada teoria dos fatos, colocando como narrativa central a existência de uma organização criminosa, comandada pelo PT e por Lula, composta de um núcleo dirigente, um núcleo político e um núcleo de operadores.
Foi essa narrativa que permitiu focar as investigações em Lula e PT, deixando de lado o PSDB e outros partidos de fora da base.
Se a narrativa fosse de um conluio de empreiteiras atuando em todos os níveis de poder, as investigações chegariam a Minas Gerais, São Paulo e demais estados. Portanto, a seleção da narrativa não foi aleatória.
Na Força Tarefa há identidade absoluta entre Policiais Federais, procuradores e juiz, atropelando um modelo clássico do liberalismo, segundo o qual quem investiga não denuncia; quem denuncia não julga. Cabe ao procurador fiscalizar o policial e o juiz impedir abusos de ambos. No caso do juiz de instrução acusador, aceito por alguns países, o julgador final precisa ser outro juiz, sem envolvimento direto com o caso.
Prevaleceu o padrão OBAN.

4o Movimento: o pacto eleitoral para a PGR

Cada vez mais, o MPF passou a atuar como partido político, a começar da eleição para PGR.
As eleições para a PGR obedeceram às receitas padrão do presidencialismo de coalizão. Cada candidato atua politicamente, aproximando-se de líderes do governo, de deputados, de senadores e cativando a base. Foi o caso de Janot, levado por Aragão a visitar José Dirceu, mesmo após o julgamento da AP 470, ou oferecendo jantares a José Genoíno em sua casa, comparecendo a jantares com políticos petistas.
Como em todo arranjo político, havia um pacto entre as lideranças do MPF, de ninguém se candidatar à reeleição.
Cláudio Fonteles permaneceu PGR por um mandato. Passou o bastão a Antônio Fernando de Souza. Este pegou a AP 470 pela frente, e pressionou Lula: se não fosse reconduzido poderia parecer que o governo pretendia varrer o mensalão para baixo do tapete. Atropelou o acordo.
Na rodada seguinte, o favorito era Wagner Gonçalves, ex-presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), apoiado por Eugênio Aragão. Foi vetado por Gilmar Mendes, na época presidindo o STF, e inimigo declarado de Wagner e Eugênio. Foi uma das muitas vitórias que Gilmar conseguiu contra Lula, meramente blefando: a outra foi o afastamento de Paulo Lacerda, que liberou o jogo político-partidário na PF.
Restou a Lula indicar Roberto Gurgel que imediatamente transformou a denúncia de Antônio Fernando em representação no STF. E coube o papel de verdugo ao ex-procurador Joaquim Barbosa, do círculo mais próximo dos procuradores progressistas.
Inquéritos volumosos têm muitas razões que os leitores desconhecem ou não conseguem captar. Mas, ali, havia duas informações indesmentíveis:
1.     A AP 470 foi montada totalmente em cima da suposição do desvio de R$ 75 milhões da Visanet.
2.     O desvio não ocorreu.
O estratagema serviu para que o PGR livrasse Daniel Dantas da operação, mesmo dispondo de um laudo técnico da PF mostrando o pagamento prometido de R$ 50 milhões a Marcos Valério sem contrapartida de serviços.
Ao lado o episódio da helicoca, trata-se de um dos grandes mistérios nesses tempos em que se supunha que nenhuma informação ficasse escondida. Não se tratava de um ato unilateral de um PGR, mas de um artifício endossado por várias instâncias.
O MPF passava a atuar como partido político.

5o Movimento: o MPF de Rodrigo Janot

Rodrigo Janot sempre pertenceu ao chamado grupo progressista do Ministério Público. Foi subprocurador de Cláudio Fonteles e candidato a vice de Wagner Gonçalves.
Quando dirigia a Escola Nacional do Ministério Público, montou reuniões periódicas para discutir temas nacionais, das quais eram participantes ativos Eugênio, Wagner, o advogado ativista Luiz Moreira, Álvaro Ribeiro da Costa, para o qual eram convidados dirigentes petistas de maior preparo, como José Genoíno. Nesses encontros, discutia-se de nanotecnologia ao papel das Forças Armadas.
Em todo esse período, Janot preparou-se para ser PGR. Valeu-se para tal do estreito conhecimento que tinha da máquina do MPF, como segundo de Fonteles e presidente da ANPR.
Nas eleições, atropelou duas procuradores símbolos do MPF, Ela Wiecko e Deborah Duprat – a quem acusou de ser ligada a José Serra. Computados os votos de todos os Ministérios Públicos, Deborah foi a mais votada. Mas Janot foi o mais votado dentre os procuradores da República.
A esta altura, um novo fenômeno alterava a natureza do MPF, com a ampliação dos quadros e o advento da era dos concurseiros, jovens preparados, com recursos para se dedicar por anos para se preparar para os concursos, não necessariamente com vocação pública, mas encantados pela possibilidade de altos salários iniciais e do poder de “autoridade”.
É nesse momento que Janot passa por uma um processo de conversão ao status quo. Percebendo os novos tempos, foca sua campanha eleitoral em temas de gestão e de atendimento às demandas corporativas da classe. E dando-se conta dos impactos da AP 470 sobre a classe e sobre a opinião pública, preparou-se para transformar a Lava Jato no passaporte final do MPF para o centro do poder.
Reconduzido ao cargo por Dilma, uma de suas primeiras atitudes foi abrir uma ação contra ela, em um gesto considerado desleal por seus antigos companheiros.
Respondeu a uma fala de Lula – em uma escuta ilegalmente divulgada – afirmando que devia tudo ao concurso público e não a ele, Lula. A declaração era inoportuna, visto que respondendo a uma conversa informal ilegalmente divulgada. Mas mostrava que Janot já vestira o avental asséptico do concurso público para se alinhar com a nova clientela, mesmo tendo pavimentado sua carreira na PGR por confabulações políticas de praxe.
Só após muita pressão dos amigos ousou avançar sobre Aécio Neves, o filho dileto do status quo.
Teve papel central na deposição de uma presidente eleita e na condução ao centro de poder de figuras do naipe de Michel Temer, Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Moreira Franco. E sua agenda continua em sintonia com a agenda política, ampliando a ofensiva contra o antigo governo sempre que se aproximam datas relevantes, como o da votação do impeachment.

6o Movimento - Próximos passos

Hoje em dia, em que pesem tantos bravos procuradores de direitos da cidadania, o MPF tornou-se peça central no desmonte do estado de bem-estar social.
Desde o início da crise política, sabia-se que não se tratava apenas da disputa entre uma presidente atabalhoada e políticos barras-pesadas, mas de concepções de Estado.
Bem antes da votação do impeachment se sabia que o novo governo entraria ungido pela promessa de limitar as despesas públicas, definindo limites nominais para gastos voltados para os interesses difusos, saúde, educação, sem definir limites para os gastos com juros. Para um leigo, parece medida disciplinadora de gastos. Para quem é do ramo, significará o desmonte do SUS e do sistema educacional público.
Derrubada Dilma, a primeira atitude da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) foi procurar o interino, não para garantir a manutenção dos direitos sociais, mas para assegurar vantagens corporativas já prometidas.
Hoje em dia, o MPF atua como verdadeiro partido político, com assessoria de imprensa, estratégias de marketing, iniciativas parlamentares, discursos políticos, parceria com a mídia e ações sincronizadas com movimentos da política. Como tal, monta alianças, joga de olho na opinião pública, sujeita-se às pressões da mídia. Da mesma maneira que um partido convencional.
Deborah, Ela, Eugênio, Fonteles, Álvaro Augusto, Eugênia, e outros procuradores símbolos de um Ministério Público que não mais há. O atual MPF, do dr. Janot, tornou-se peça central do maior ataque aos direitos sociais desde o regime militar. E poderá se tornar o coveiro da democracia.
No âmbito do governo Temer há um movimento nítido de devolver às Forças Armadas o papel de gendarme. A segurança nas Olimpíadas ficou sob as ordens do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), do general Sérgio Etchgoyen. Não apenas isso. Ele passa a comandar também o Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência), que tem sob seu guarda-chuva as áreas de fiscalização da Receita, Banco Central, Abin (Agência Brasileira de Inteligência). Terá, ao alcance do seu computador, a ficha de qualquer cidadão brasileiro com registro civil.
Conseguirá dispor de um poder de intimidação similar ao aparato do qual se vale hoje em dia o PGR.
No entanto, nos próximos meses, haverá um movimento similar ao que marcou o fim da guerrilha.
Inicialmente, havia uma coesão dentre todos os aparelhos de repressão contra o inimigo comum, a guerrilha. Vencida a guerra, observou-se uma luta intestina dentre eles. Prisioneiros de um aparelho eram ameaçados de tortura se passassem informações quando interrogados por outros aparelhos.
Consumada a vitória final sobre Lula e o PT, provavelmente haverá embates similares entre PF e MPF, entre GSI e Forças Armadas.
O país de hoje não se assemelha ao do início da ditadura. Mas há no ar as mesmas jogadas oportunistas em cima do vácuo político que marcou a agonia do regime militar.
Por enquanto, a melhor tradução da PGR é a imensa catedral brasiliense onde está alojada a sua sede, redonda, permitindo a todos se verem internamente. Mas de vidros indevassáveis, que permitem enxergar tudo o que ocorre lá fora; mas impedem que se veja de fora o que acontece lá dentro.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Chico Buarque e Zizi Possi - Pedaço de Mim (com legenda)





Palavra que só tem lugar em nossa língua, mas que dói em qualquer canto do planeta...

domingo, 7 de agosto de 2016

Será que Hitler tinha razão?

Óbvio que não...

O ódio antissemita disseminado por séculos na Europa, e sistematizado como máquina político-ideológica, e como em método de etnocídio em escala industrial, jamais se justificará nas infâmias cometidas pelos judeus que sobreviveram ao Holocausto nos anos que se seguiram...

Mas toda vez que surge uma ou outra história escaborsa dos crimes praticados pelos judeus-israelenses, contra palestinos ou qualquer outra nacionalidade, a gente se pergunta se, no fim das contas, o preconceito e ódio contra judeus não tem certa razão de ser...

Não tem, repito, e boa parte dos crimes judaico-israelenses são resultado direto da expiação de culpa mundial, principalmente estadunidenses e ingleses, que hesitaram enquanto puderam a atacar as posições alemãs nos campos da morte, deixando o "resgate" para o final...

Uns argumentam questões logísticas da guerra, porque se salvassem os judeus logo no começo da virada aliada na Europa, teriam que dar conta de alimentar e alocar milhões de pessoas, o que poderia atrasar a vitória ou até mesmo mudar o resultado do conflito...

Outros argumentam que o antissemitismo presente nas sociedades aliadas determinou a sorte dos judeus nos campos...

Eu acho que nenhuma das questões é excludente...

Voltando à vaca fria, o certo é que a criação do Estado de Israel cumpriu a tarefa de remediar essas decisões, e punir o Islã por ter se aliado ao esforço nazista, além da necessária presença de um aliado fortemente armado na região, que já pontificava como fonte de petróleo...

Então, de certa forma, os crimes judaico-israelitas são praticados com a omissão cúmplice do Ocidente, desde 1948...

Agora (mais) uma história escabrosa vem à tona...

Milhares de adultos israelenses acabam de descobrir que toda sua vida foi uma mentira...Tal e qual os sequestrados da ditadura argentina, essas pessoas souberam que seus pais não eram seus pais biológicos, como acreditavam, mas que foram abduzidos por médicos e autoridades de Israel, que diziam aos pais das vítimas que as crianças morreram na hora do parto...

A maioria das crianças é, provavelmente, de origem iemenita, mas há tantos outros de tantos outros países, naquilo que pode ser considerado o maior caso de tráfico de crianças da História, e o que é pior, estruturado como política oficial de um país...assim como fez a ditadura argentina...

Leia o texto aqui na Al Jazeera...

O pior da ignomía de casos como esse é nos deixar a tentação de imaginarmos que o mundo seria bem melhor sem judeus...

sábado, 6 de agosto de 2016

O PT de Campos e sua relação de cachorra com o PIG....

Se não desmentir  a acusação caluniosa de que o PT nacional move-se pelos interesses da Odebrecht quando vetou a aliança com o PDT, aquele que traz o filho da Imperatrix e do prefeito-canecão como candidato a prefeito, ficará provada a subserviência que é há muito presumida...

Ou será que esse "furo" não foi plantado pelo pessoal da "boquinha descontente e banguela"?

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Xico Sá ataca novamente...

Mais um belo texto de Xico Sá, publicado, acreditem, no hiper-conservador El País...É claro que o El País não deixará de ser o veículo que é...

Mas uma crucial diferença entre o esgoto da mídia nacional e local e a mídia de lá é que você conseguirá, com algum esforço, é claro, separar a opinião dos donos e alguma tentativa de equilibrar a cobertura dos fatos...

Coisa raríssima por aqui, a não ser que os fatos tratem de "amigos"...

E tem gente boa por aqui que se ilude, imaginando que vá conseguir usar sua biografia e capacidade para dar um verniz civilizatória em algumas pocilgas editorias daqui da planície...Algo como uma borrifada de "perfume acadêmico" em uma latrina...

Bom, vamos a Xico Sá:

O mundo invertido de Temer

No vale das sombras do vice em exercício, os programas sociais dedicados aos estudantes devem virar fumaça, como em uma experiência científica de garotos

Bem-vindo ao mundo das coisas estranhas. A equipe da propaganda oficial, com a mãozinha generosa de parte da mídia nativa, tenta, desesperadamente, “humanizar” — sim, o verbo publicitário é este ai — o vice em exercício.
No peito de um cacique do PMDB também bate um coração? Tarefa medonha para os marqueteiros neste momento em que os humanos tentam superar seus limites olímpicos nos jogos do Rio.
Michelzinho, 7, o primogênito, tem feito o que pode nessa missão impossível — de pitaco sobre a marca publicitária “Ordem e Progresso” a pagar o mico, diante dos coleguinhas de sala de aula, ao dramatizar com o papai um encontro “casual” e corriqueiro na porta da escola.
Os publicitários interinos serão obrigados a ler muito Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e ver os filmes clássicos de ficção científica durante esse projeto de humanização do Temer. Sorte, moçada, nessa lida, mas a literatura não registra casos de conversões de mutantes peemedebistas.

Monstro sem face

Corra, marqueteiro, corra, antes que a gente descubra o mundo invertido, como na série americana Stranger Thinks (obra produzida pela Netflix), do Palácio do Planalto. Dificil humanizar um monstro sem face.
Ah, essa terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se uma imensa Hawkins tropical. Os fãs do seriado que nos digam. Bem-vindo ao vale das sombras.
No mundo invertido de Temer, que está bem abaixo dos nossos olhos — e muitos humaníssimos brasileiros ainda não veem — a aposentadoria será concedida pela Velha da Foice e a carteira assinada, aquele passaporte de uma certa dignidade antiga, enfeitará a vitrine do museu da sucata trabalhista.
No vale das sombras do vice em exercício, os programas sociais dedicados aos estudantes devem virar fumaça, como em uma experiência científica de garotos. A política cultural, mire-se no desmonte da Cinemateca de SP, idem ibidem, será apenas uma nota de rodapé nos livros de curiosidades históricas.
Corra, menino, corra. O monstro do mundo invertido ainda não revelou a sua verdadeira face. Imagina quando estiver realmente disfarçado de humano na propaganda oficial! Será mais assombroso que um papa-figo, a perna cabeluda do Recife, um chupa-cabra, a loira do banheiro, o velho do saco e tantas outras lendas urbanas.
Xico Sá, escritor e jornalista, comentarista de tv, é autor de Big Jato (Companhia das Letras), entre outros livros.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Terrorismo sob encomenda para midiotas 4...

A patacoada promovida pelos golpistas é um escracho frente ao problema que o mundo enfrenta...Talvez os golpistas, no afã de abaixarem as calças para os EUA, estejam querendo importar  para o Brasil os conflitos que eles (os EUA) semearam pelo mundo...

Instantes atrás, terroristas do ISIL (ISLAMIC STATE OF IRAQ and the LEVANT), fizeram vários reféns em uma igreja católica francesa, dentre eles o próprio pároco, que foi ferido a facadas no pescoço, no momento da invasão policial...


Veja aqui na página da Al Jazerra...

Terrorismo sob encomenda para midiotas 3...

Desculpem a insistência no tema...Mas é que a coisa anda passando dos limites...

Bem, não é coincidência que a OAB mantenha silêncio, afinal, as digitais da entidade de classe estão todas gravadas no golpe que deu origem ao estado de exceção...]

E justiça seja feita, a lei antiterrorismo foi aprovada no governo Dilma, comprovando o que sempre dissemos: O PT e a esquerda não tem a menor noção de como lidar com os temas corporativos das polícias, judiciário, ministério público e segurança...

As administrações petistas só produziram desastres nesse setor, piorando o que já era horrível...

Agora o ovo da serpente começa a chocar, e o que parecia uma somente uma palhaçada para distrair o populacho, também é o ensaio para testar os limites da tolerância do público com a supressão de direitos que vem por aí...

Essa observação não é minha, mas de um comentarista no texto publicado no blog do Nassif, que traz o protesto do deputado petista Padre João, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal frente a proibição de que advogados se avistem com os "terroristas perigosíssimos", presos em unidade de segurança máxima, em Mato Grosso...

Eu discordo, pois acho que a tolerância do senso comum para atos autoritários é historicamente larga e complacente...

Leia o texto aqui...

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Terrorismo sob encomenda para midiotas 2...

O blog se orgulha de andar em boa companhia...Dia 23 de julho escrevemos algo sobre a canalhice irresponsável dos golpistas que se autointitulam ministros da defesa e justiça, e você pode ler aqui...

Ontem Janio de Freitas e Wilson Ferreira, com muito mais cabedal e talento, ratificaram nossa impressão sobre essa palhaçada...

Compartilhamos o texto do Wilson, aí embaixo e do Janio aqui...

O evento-encenação da "célula amadora" dos terroristas de paintball


Saem bolivarianos e comunistas e agora entram terroristas islâmicos. Sim! Nós também temos terroristas. “Células amadoras” onde o batismo é feito através de webcam, compram armas do Paraguai pela Internet e pretendem fazer “treinos de lutas marciais” a poucos dias dos jogos olímpicos, suposto alvo dos intolerantes religiosos. Isso quem disse foi Alexandre de Moraes, ministro da Justiça, em uma coletiva convocada numa atmosfera de pompa e gravidade. Uma “investigação sigilosa” que, ao mesmo tempo, pode ser divulgada à Imprensa. E a grande mídia repercute com seus correspondentes no Exterior para que, definitivamente, esse País seja levado à sério. Esse é mais um exemplar de uma longa história de “eventos-encenação” (Umberto Eco) que começa com o casamento de Lady Di e Príncipe Charles, passando pelos mísseis jogados no Sudão e Afeganistão por Bill Clinton para desviar a atenção de um escândalo sexual em 1998 até essa desajeitada estratégia do governo Temer repleta de contradições, timing e oportunismo, com direito a foto de um “terrorista de paintball”.


No ápice do escândalo sexual do presidente Bill Clinton envolvendo uma estagiária e charutos em pleno Salão Oval da Casa Branca em 1998 e a ameaça de sofrer um impeachment, o Governo respondeu ao ataque terrorista a duas embaixadas norte-americanas na África com um ataque de mísseis de cruzeiro contra alegadas posições terroristas no Sudão e Afeganistão. Muitos analistas viram nessa ação uma estratégia para derrubar a pauta midiática do escândalo. O Departamento de Estado falou que tudo foi “mera coincidência”.

E naquele mesmo ano era lançado o filme Mera Coincidência (Wag The Dog) que acompanha um presidente também envolvido em escândalos sexuais que precisa reverter a agenda da mídia a poucas semanas do final da campanha da reeleição. Contrata um conselheiro de relações públicas e um produtor de Hollywood para produzir uma guerra fictícia envolvendo supostos terroristas albaneses em guerra cenográficas em chroma key e muitos vídeos “vazados” para os telejornais – sobre o filme clique aqui.

Tanto na realidade como na ficção, esses exemplos tratam de dois elementos fundamentais na política: o timing e o oportunismo. E quando esses dois elementos estão presentes simultaneamente em um fato político há 99% de possibilidade de tudo ter sido manufaturado, seja em uma False Flag, Inside Job, factoide, pseudo-evento ou um evento-encenação.

Filme "Mera Coincidência" (1998): terrorismo em chroma key

A poucos dias do início das Olimpíadas no Rio, o ministro da Justiça Alexandre de Moraes convoca a imprensa e anuncia que a Polícia Federal prendeu um grupo de dez brasileiros que conversavam em aplicativos de comunicação, como o WhatsApp, sobre intolerância racial, ódio e islamismo. E finalmente foram presos quando os comentários passaram para “atos preparatórios”  como comprar arma pela Internet de uma loja paraguaia e planejar fazer treinamentos de artes marciais.

Uma célula do Estado Islâmico no Brasil? Sim, e para o ministro trata-se de uma “célula amadora”.

A coletiva à imprensa foi cercada com toda pompa e atmosfera de gravidade necessárias – o ministro levantou a bola para ao longo do dia a grande mídia chutá-la para frente através dos seus correspondentes internacionais, ávidos pela possibilidade do Brasil também estar no circuito do terrorismo internacional e ser um país respeitado. Sim! Nós também temos terroristas. Embora ainda “amadores”.

A coletiva: pompa e atmosfera de gravidade

Eventos-encenação, telegenia e canastrice


Umberto Eco em seu texto clássico Televisão: a Transparência Perdida(texto do livro Viagens na Irrealidade Cotidiana, Nova Fronteira, 1983) descrevia como a irrealidade cotidiana estava sendo progressivamente transmitida por uma nova forma de TV: a “neotevê” - aquela televisão onde a realidade deixou de ser menos os fatos imprevisíveis e espontâneos do que aqueles habilmente produzidos para se encaixar confortavelmente no script pré-estabelecido da grande mídia – sobre esse conceito clique aqui.

Para Eco, o casamento da família real inglesa (o “Royal Wedding”) em 1981 teria sido o acontecimento inaugural:  produzido e roteirizado para ser telegênico e encaixado na grade de programação da BBC.

São os “eventos-encenação” onde relações públicas, marqueteiros e jornalistas transformam-se em consultores para a produção de eventos que consigam juntar em um único lance timing e oportunismo.

Contando com a rápida repercussão pela Neotevê. Afinal, os eventos-encenação têm appeal, telegenia e canastrice com design cuidadosamente planejado para a mídia – reparem no personagem canastrão criado pelo ministro Alexandre de Moraes:  um misto de Kojak com um estudado olhar grave que frequentemente entra em conflito com sua fala gaguejante e engasgos constantes. Mas diferente do ministro, o velho Kojak da série dos anos 1970 era um policial que não se levava a sério...

Ministro da Defesa: pronto para a ação em seu colete de campanha...

Eventos-encenação são contraditórios


De início, um evento-encenação apresenta muitas contradições pela sua natureza esquizofrênica: embora encenada, tem que aparentar espontaneidade e a fatalidade do destino.

(a) A expressão “célula amadora” ‘e uma contradição de termos: “célula”, um conceito tático de um movimento político organizado, com característica “amadora”. O ministro teve que criar um conceito inusitado para a mídia engolir a história de jovens se comunicando no WhatsApp e comprando armas pela Internet;

(b) O ministro declarou que nomes dos brasileiros seriam mantidos em sigilo para, segundo ele, assegurar o êxito das novas fazes de investigação. Como é possível sigilo em uma ação já amplamente repercutida na mídia pelo próprio ministro. Na Europa e em países acostumados a lidar com atos terroristas, as investigações são sempre mantidas em sigilo para que não sejam atrapalhadas e nem crie pânico desnecessário.

(c) A necessidade da prisão do grupo suspeito veio a partir do momento em que passaram para “atos preparatórios”. A poucos dias das Olimpíadas a “célula” decide (ou foi “acionada”) partir para ação, comprando armas pela Internet e decidindo treinar “artes marciais”. Tudo em cima da hora, numa ação que, mesmo para aqueles que assistem a filmes de ação (provavelmente a formação da “célula amadora”), sabem que uma ação terrorista num evento dessa magnitude levaria meses para ser planejada.

(d) As prisões foram feitas com base em uma única evidência: conversas em aplicativos como WhatsApp. Mas não estamos no país onde juízes tiram o serviço do aplicativo do ar como sanção pelo serviço não fornecer à Justiça os registros de conversas entre usuários? Essa contradição foi apresentada ao ministro na coletiva. Alexandre de Moraes gaguejou mais do que o normal.

Agora vamos ao núcleo político de um evento-encenação: timing e oportunismo. Evento que de tão conveniente, passamos a nos perguntar: quem sai ganhando?

O terrorista de paintball: uma questão de corte do enquadramento

Evidências de encenação


Manchetes de jornais e imagens telejornalísticas morderam a isca oferecida pelos ministros da Defesa e Justiça e desenvolveram a habitual narrativa clichê: brasileiros barbudos, convertidos ao islamismo e, ainda, um deles respondia dúvidas sobre aulas de árabe em um grupo no WhatsApp.

Mas chega a forçar a barra no limite da irresponsabilidade ao transformar um “terrorista de paintball” em ameaça real aos jogos olímpicos. Em rede social um internauta mostrou a foto utilizada por veículos de comunicação e autoridades na qual um dos suspeitos parece empunhar uma arma de grosso calibre. Essa foto é comparada com a original, sem o corte de enquadramento. Percebemos que a arma é nada mais do que um equipamento usado em paintball para disparar pequenas bolas de tinta nos adversários do jogo - sobre isso clique aqui.

Nada como uma arma escura e um rosto barbado e “étnico” para criar uma ameaça pública...

Timing


A convocação emergencial de coletiva a imprensa veio em momento perfeito - com direito a imagens na TV com o ministro da Defesa Raul Jungmann vestindo uma espécie de colete de campanha e dando novas declarações esquizofrênicas (falava em “calma” e “segurança” após a fala grave e gaguejante de Alexandre de Moraes) acompanhado de militares com roupas de camuflagem como “papagaios de pirata”.

Tudo acontece após o massacre em Nice e a poucos dias dos jogos olímpicos. E também em meio a um ataque em um shopping em Munique, Alemanha. Isso após um outro ataque a machado em um trem em Würzburg, também Alemanha – e, como sempre, o “terroristas” ou se matam ou são mortos no final pela polícia – sobre como identificar o script de um False Flag clique aqui.

Como sabemos, um Estado autoritário deve sempre contar com um inimigo externo para criar legitimidade pelo medo e terror. O atual governo interino de Michel Temer sabe que a sua missão é amarga e ingrata: enfiar goela abaixo do populacho todas as medidas neoliberais antipopulares, antissociais e anti-trabalhistas – Estado mínimo e financismo máximo.

Bolivarianos e comunistas perderam a força de apelo que levou milhares de camisas amarelas às ruas. Agora é o momento de criar um novo inimigo: o poder do Estado Islâmico arregimentar brasileiros através da Internet. Terroristas e homens-bombas estariam entre nós. Muito embora eles já estejam há anos aqui com o crime organizado (PCC) que explode caixas eletrônicos e corrompe a Polícia Militar.

Desviar a atenção da mídia internacional?

Oportunismo – quem ganha?


O impeachment da presidenta Dilma deve ir a julgamento final em agosto, em meio aos jogos olímpicos do Rio. Elevar o alerta de terrorismo é a clássica estratégia de desvio da atenção no momento em que jornalistas e o mundo inteiro estarão olhando para o Brasil.

O fato de Dilma não ter renunciado e ter se convertido em uma “denúncia viva” do golpismo brasileiro ao viajar pelo País e dar entrevistas a correspondentes estrangeiros, transformou-se num problemas de relações públicas para o governo interino.

Um alerta de terrorismo é conveniente para derrubar a pauta midiática atual  concentrada em impeachment + crise econômica + Lava Jato.

Além disso, ganha também a grande mídia, principalmente a TV Globo. Nos últimos anos de queda de audiência vertical pela concorrência da Internet e tecnologias de convergência, é facilmente perceptível no seu telejornalismo a demonização da Internet: terra de ninguém onde ocorrem golpes financeiros, pedofilia, pornografia, pirataria vício, dependência, Deep Web etc.

E agora, além de torcidas organizadas de futebol que marcam encontros violentos pelas redes sociais, temos o Estado Islâmico cooptando brasileiros com “batismos virtuais” diante de um estandarte negro  transmitido por webcam.

Para uma emissora como a Globo que sempre sentou em cima de mercados de novas tecnologias para evitar concorrência com a TV aberta (vide o caso da TV por assinatura nos anos 1990-2000), o governo Temer poderá trazer as condições ideais: crise econômica e recessão para forçar todos, com dinheiro curto, ficarem em casa e ter a TV como única fonte de entretenimento; e demonização das ameaçadoras novas tecnologias.